É PRECISO ANALISAR “O BASCULHO”

Rafael Roso Bueno

O “basculho”, para falar com vigor, deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), foi preso pela Polícia Federal por: “ofender ministros do STF”, “atentar contra as liberdades democráticas” e “fazer alusões e elogios ao AI-5” (famigerado ato institucional de 1968 que suspendeu o uso de “habeas corpus” e cerceou a liberdade de expressão durante o Regime Militar).
Após sua prisão, ele argumenta como defesa o seu direito à liberdade de expressão (???) e, caso a Câmara não peça a suspensão da prisão, certamente seus advogados tentarão sabe o que para soltá-lo? HABEAS CORPUS!
É difícil entender a estrutura psicossociológica de um bolsonarista fanático, mas sabemos que no fundo eles desejam o retorno do AI-5 não para todos, mas só para “os outros”, “os que não concordam conosco”. Para os inimigos a lei. Para nós, tudo. Esta é a máxima desta turma.
Mas uma coisa ainda mais profunda e muito interessante este evento nos faz questionar.
Em 1999, o então deputado federal Bolsonaro, disse que o erro da ditadura foi prender e não matar. Que o correto deveria ter sido fuzilar uns “30 mil”, dentre eles, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Em 2016, na infame votação para o Impeachment de Dilma Roussef, o mesmo, outrora deputado, fez elogios a um comprovado torturador da Ditadura Militar o qual nem a alcunha vigorosa de basculho faz jus aos atos.
Pois bem. Quanto a esses episódios o STF e seus ministros nada fizeram. Por que será? O rigor da Lei tem suas escolhas temporais e arbitrárias? Talvez os ministros pomposos do STF tenham padecido de um mesmo flagelo que boa parte da esquerda padeceu com algo do tipo: “esse cara é maluco”, “não vai dar em nada”.
O pior conto no qual acabamos caindo é o da idealização do próprio Estado, como ponto de suposta neutralidade e arbitrariedade na gestão da vida social. O Estado e suas instituições (STF, por exemplo) não estão descolados da dinâmica da materialidade das forças políticas e seus jogos e da própria resultante do conflito de classes. O estado não é “O Estado”. É um tipo determinado de Estado. Sendo o de nossa época, o burguês (pois é expressão de sua dominância).
Sim. Há uma Constituição muito cidadã por sinal, que sempre se efetivou parcialmente. Entretanto, tomá-la como cidadã não a transforma em sinônimo de civilização apenas porque a adjetivamos assim. Isso seria dar uma força quase que mágica às próprias palavras e significantes.
Tomar a atitude da Suprema Corte contra Daniel Silveira como uma “defesa da democracia”, e nos esquecermos de seu silêncio cúmplice ante ao genocida que hoje ocupa a presidência, é idealizar o presente de maneira ingênua. Visando recalcar o que há de pior no passado e, aguardar seu retorno, sintomático, no futuro.
Daniel Silveira
Charge Daniel Silveira no planalto

Este post tem 2 comentários

  1. Arthur Barbosa

    Muito fera !

  2. Rafael Roso Bueno

    Obrigado!

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